XXII Capítulo Geral
Celebração de Abertura
Introdução
Esta manhã, reunimo-nos para iniciar oficialmente o XXII Capítulo Geral da Congregação. Constituímo-nos em assembleia legitimamente reunida e organizámos os serviços fundamentais para o trabalho capitular das próximas semanas. Este início formal coroa uma grande quantidade de esforços, na Cúria Geral e em todas as Entidades, para criar as melhores condições de realizar este acontecimento de grande importância para a vida da Congregação.
Temos, porém, clara consciência de que o sucesso do Capítulo não pode ser só fruto da nossa decisão e do nosso esforço e capacidade: tudo o que somos, podemos e sabemos, colocamo-lo nas mãos de Deus, a fim de que o nosso coração esteja livre e disponível para escutar o seu Espírito e fazer a sua vontade. Assim, como assembleia capitular constituída, e unida aos confrades de toda a Congregação, representados por esta comunidade que nos acolhe, pomo-nos, antes de mais, na escuta do nosso Senhor e Mestre, abrindo o coração à sua Palavra e repartindo juntos o seu pão de unidade, amor e vida.
Trazemos connosco as energias e a generosidade, mas também as dificuldades e as falhas nossas e dos nossos confrades. No início da Eucaristia, pedimos o dom da misericórdia do Senhor, que nos reconcilie com Ele e entre nós, e nos renove com a força do seu Espírito.
Kyrie
Senhor, nosso Pai, que reunis os vossos filhos dos quatro ângulos da terra:
Libertai-nos de toda a discórdia e do ódio, e concedei-nos unidade, verdade e amor.
Tende piedade de nós! / Kyrie, eleison!
Senhor Jesus Cristo, vinde realizar a vontade do Pai:
Libertai-nos do egoísmo e do medo, e abri os nossos corações à voz do Pai e dos irmãos.
Tende piedade de nós! / Kyrie, eleison!
Espírito Santo, que renovais todas as coisas:
Libertai-nos da obstinação e do engano, e guiai os nossos corações à sabedoria do Pai.
Tende piedade de nós! / Kyrie, eleison!
Homilia
As Leituras que foram proclamadas (2Co 5,14-21; Jo 21,1-17) são um convite a iniciar com fé e confiança este tempo fundamental na vida da Congregação, abrindo-nos à presença do Senhor e à acção do seu Espírito.
O trecho do Evangelho de João que nos é proposto não tem apenas a finalidade de narrar uma aparição a um grupo de discípulos, mas quer chamar a atenção sobre a nova forma de presença de Jesus na sua comunidade, depois da ressurreição. Procuremos, pois, reler juntos o texto, como Palavra de Deus para nós, no início do XXII Capítulo da Congregação, de modo que ela nos ajude a plasmar o coração para acolher a visita do nosso Senhor e Mestre.
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A narração começa por dizer que estes discípulos estão pescando, ou seja, estão exercendo a sua profissão e a missão a que foram chamados: farei de vós pescadores de homens (Mc 1,17). Nesta missão, tiveram certamente momentos de entusiasmo e de bons resultados, mas neste momento a escuridão da noite, apenas terminada, prolonga-se no seu cansaço e frustração por um trabalho em vão.
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Jesus, que, em tempos, guiava pessoalmente as suas iniciativas nos caminhos da Palestina, já não está fisicamente presente no meio deles. Não quer dizer que os tenha abandonado, mas, quando se faz presente, não é facilmente reconhecível. Os discípulos, porém, têm o bom senso de acolher a palavra de um personagem desconhecido que, na margem do lago, se apercebera do seu desânimo e os aconselhara a mudar o método de trabalho. O resultado foi surpreendente: a presença desse estranho realizou uma pesca milagrosa, onde o seu esforço, experiência e perícia tinham falido.
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Nessa altura, um do grupo (o que conhecia bem o amor do Mestre pelos seus discípulos) estabelece uma relação entre o resultado da sua actividade e a palavra do homem que está na margem do lago: É o Senhor! E este reconhecimento muda o grupo.
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O Senhor prepara-lhes, a seguir, uma refeição e põe-nos à sua volta. Sobre a mesa estão os Seus dons, mas também o fruto do trabalho e da fadiga dos discípulos. Partirão deste encontro para voltar ao mar da missão, sabendo que o Senhor far-se-á sempre encontrar em qualquer margem do mundo e da história.
Colocado na conclusão do quarto Evangelho, este encontro sobre a margem do lago liga o relato da vida de Jesus com a actividade dos seus discípulos e abre-lhes horizontes para toda a vida e missão da Igreja. Ele continua a tornar-Se presente para cuidar dos seus, encorajá-los, orientá-los e tornar eficaz a sua missão.
Hoje, nesta margem de Roma, aonde viemos dar, Ele nos espera e nos propõe que refaçamos a experiência dos cinco discípulos. Procuremos identificar os momentos essenciais desse encontro.
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Chegámos aqui, vindos de toda a Congregação, com muitas experiências agradáveis de fraternidade e sucessos apostólicos, mas também com a canseira das incompreensões, dificuldades e incertezas do amanhã. A pergunta de Jesus leva-nos a esta realidade: Que tendes para comer? Que é que tendes para vós e para oferecer ao mundo? Que trazeis?
É seu costume começar assim os seus diálogos: em forma de interrogação, que nos leva a olhar para nós mesmos na sua presença…, o mais possível, com o Seu olhar. Estas perguntas ecoam ao longo do Evangelho em momentos importantes de revelação:
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Aos primeiros discípulos: Que procurais? (Jo 1,38);
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À mãe, nas bodas de Caná: Que queres de mim? (Jo 2,4);
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Antes de multiplicar os pães à multidão: Quantos pães tendes? (Mc 6,38);
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Antes da confissão de Pedro: E vós, quem dizeis que Eu sou? (Mc 8,29);
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A Maria Madalena, junto do túmulo vazio: Mulher, porque choras? (Jo 20,13);
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No diálogo com a Samaritana (Jo 4).
Nesta luz, convém olhar para as relações que se farão ao Capítulo sobre o estado da Congregação e das Entidades. Não são apenas um relato administrativo, mas a tomada de consciência, diante do Senhor que nos visita, do que a sua palavra fez em nós e através de nós. Mas é também a ocasião de olhar, com os seus olhos serenos e misericordiosos, para os esforços inúteis, canseiras e erros do nosso activismo sem a sua presença.
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O segundo momento é o da atenção e da abertura a outras vozes. Na Congregação e em cada Entidade, temos tradições venerandas, estruturas, organizações e modos de pensar que fizeram escola e deram frutos. Podemos correr o risco de nos fecharmos nas nossas certezas, nas nossas imprudências ou medos. A experiência da crise e do vazio pode ser útil, para nos apercebermos do que é preciso mudar, e para não continuarmos a vigiar a gaiola depois do pássaro ter fugido.
Pode acontecer, como aconteceu com os discípulos, que seja um que não pertence ao nosso grupo a vir dar-nos a sugestão certa. Para isso, é fundamental a abertura do coração e do espírito, a inocência e a honestidade intelectual para ouvir, aceitar e ponderar as ideias sem preconceitos, para que a voz de Deus se possa fazer ouvir por toda a parte. Isto exige também a liberdade de mudar maneiras de proceder, métodos e estruturas, de modo a tornar o Evangelho presente nas circunstâncias do mundo em mudança.
Muitas vezes, nem é a autoridade – neste caso, Pedro – que reconhece, por primeiro, a presença do Mestre. Não é importante! O determinante é que a autoridade escute os outros membros da comunidade, onde frequentemente Deus Se revela, e que seja capaz de avaliar essas sugestões e encher-se de coragem para se atirar ao mar e ir ao encontro do Senhor. Então, também os outros a seguirão, levando a rede… que não se romperá.
Esta atenção aos outros funda-se na própria liberdade de Deus, que nos faz livres e fraternos. Ele é sempre maior que todas as instituições que O tornam visível: não é organizável, embora deva modelar as nossas organizações; não é estruturável, embora a sua imagem se deva reflectir nas nossas estruturas; dá assistência aos que orientam a comunidade, mas manifesta-se em qualquer irmão ou irmã. Por isso, o Capítulo é um tempo em que cessa a autoridade normal na Congregação. Mais que uma ideia de “democracia” ─ restituir o poder ao povo ─ esta é a expressão da comum escuta e obediência à voz de Deus.
A figura do discípulo que descobre o Senhor leva-nos, como é habitual no Evangelho de João, ao centro do mistério: era o discípulo que Jesus amava. Com isto, é-nos dito claramente que quem fez a experiência do amor de Deus é que está mais bem preparado para reconhecer a sua voz. O seu discernimento faz-se, colocando na base uma “memória do coração”, capaz de tornar presente o passado como fonte de compreensão, discernimento e novas criações.
Esta é a atitude fundamental para o discernimento capitular. Não vale seguir a primeira voz que se ouve. O discernimento faz-se comunitariamente, a partir do nosso “database do coração”, que compreende o Evangelho que recebemos na Igreja, a herança espiritual do Padre Dehon, a história da Congregação e das nossas Entidades e a experiência pessoal de cada um de nós. Em tudo isto, fizemos a experiência da presença e do amor de Deus. E quem teve a experiência da voz do Bom Pastor, reconhecê-la-á onde quer que se manifeste.
A segunda parte do relato reflecte ainda sobre este ponto central, no encontro de Jesus com Pedro. Este fez a experiência do amor do Senhor, também nas próprias infidelidades e quedas. É esta experiência que lhe permite responder positivamente à tríplice pergunta de Jesus: Simão, tu amas-me?
É, ainda à luz desta experiência, que se define a missão: apascenta as minhas ovelhas. A missão nasce do amor de Cristo por nós. Com Ele, aprende-se a dar aos irmãos a atenção, o cuidado, a organização e o estilo do Bom Pastor, até dar, como Ele, a vida pelo rebanho.
Esta é também a grande mensagem da primeira Leitura, sobre que se baseia o tema do Capítulo. Nela, Paulo apresenta o amor de Cristo como o ponto de partida, o constante arrimo e a meta da própria existência e do próprio ministério: O amor de Cristo nos impele.
Podemos dizer que esta exclamação contém também o centro do dom carismático que levou o Padre Dehon a fundar o Instituto: o Coração de Cristo, ícone do seu amor filial ao Pai e do amor redentor para com a humanidade. O Padre Dehon quis explicitamente deixar este centro do mistério cristão como herança que identifica os seus religiosos: Deixo-vos o mais maravilhoso dos tesouros: o Coração de Jesus.
Este é o centro da “memória do coração” para analisar a vida da Congregação, com o olhar sereno, exigente e encorajador de Cristo, que a ama nas pessoas concretas dos confrades que a compõem. Ele convida-nos a seguir o Seu olhar, para identificar o que deve ser limpo, discernir os sinais dos tempos que mudam, prestar atenção aos apelos do mundo e da Igreja, sonhar e programar a nossa missão em seu nome.
Nestas quatro semanas, Ele espera-nos nesta margem do lago da nossa missão. Quer manter-nos juntos à sua volta, e traz-nos com abundância os dons do Espírito do Pai. Mas também conta com os frutos da nossa colaboração fraterna e generosa, para que este banquete possa oferecer nova vida à Congregação e à nossa missão na Igreja e no mundo.
Assumamos as atitudes dos apóstolos que hoje nos são propostos:
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Pedro, na sua sinceridade, ardor e fraqueza, que o amor fiel de Cristo torna sólido como a rocha;
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O discípulo amado, próximo do Coração de Cristo, atento em reconhecer a voz do Senhor na vida da Igreja e do mundo;
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Paulo, apaixonado de Cristo e apóstolo dos povos, para levar o amor de Deus a todas as culturas e nações.
De Maria, aprendamos o dom de um coração capaz de escutar a voz de Deus e de realizá-la na nossa vida e na vida da Congregação.
[tradução: João de Chaves Bairos, scj]